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O COMPANHEIRO GIL TRADUZIU A MATERIA DO LOS ANGELES TIMES! VALEU!

SAIU no LOS ANGELES TIMES

O correspondente Vincent Bevins, do Los Angeles Times,  passou uma semana na Ocupação Marconi; abaixo o artigo que saiu no jornal com chamada na capa!

 

Tradução Gil Alvarenga

SAO PAULO, Brasil

Enquanto compradores e empresários passam pela torre de escritórios de 13 andares, um homem de meia-idade surge através de um buraco em uma porta de metal grosso, puxando para trás uma haste de aço pesado para permitir a entrada apenas de membros do Movimento de Moradia Para Todos. (MMPT)

Lá em cima, crianças, trabalhadores de baixa renda e alguns idealistas revolucionários ocupam apartamentos improvisados que oferecem vistas deslumbrantes, mas sem água ou cozinhas. Banheiros comunitários estão disponíveis no meio do prédio de escritórios São Manuel, que foi ocupado pelo movimento há quase um ano.

Em uma grande sala central, um grupo de mulheres prepara uma refeição barata e saudável e planeja um cronograma de trabalho para os demais moradores. Quando uma mulher de 80 anos com diabetes adoece, outros em seu andar se reúnem para chamar os médicos. Quando ela morre no corredor, os vizinhos se confortam uns aos outros antes de seguir em frente com suas vidas.

“Eu vim para São Paulo da minha pequena cidade natal, onde não há trabalho, e acabei ficando nesta ocupação com um amigo sem saber nada sobre isso”, diz Mirla Kelly Firmino da Silva, 22 anos, esteticista freelancer que se especializou em manicures. “Mas agora eu acredito totalmente no movimento. Nenhum de nós pode arcar com o custo do aluguel daqui, e nós merecemos moradia digna”.

Durante o ano passado, o centro da maior cidade da América do Sul foi marcadamente transformado, com cerca de 50 prédios abandonados ocupados por pessoas mobilizadas em diversos movimentos sem-teto do Brasil.

Os protestos de ocupação nos edifícios, onde bandeiras vermelhas são hasteadas nas janelas, são destinados a pressionar o governo para fornecer moradia adequada e dar às famílias trabalhadoras um lugar para morar.

Tanto nos bairros ricos como nos pobres de São Paulo, uma metrópole de 11 milhões de pessoas, valores de propriedade mais do que duplicaram nos últimos quatro anos, levando ao aumento dos custos de moradia para aqueles menos capazes de arcá-los.  Nas partes mais sórdidas do centro da cidade, um apartamento de um quarto minúsculo com vista para cenas de uso de drogas e prostituição custa 450 dólares por mês; enquanto isso, o salário mínimo é de 310 dólares por mês.

No São Manuel, conhecido localmente como a Ocupação Marconi por causa do nome da rua em que o prédio está, 140 famílias pagam cada uma 50 dólares por mês e trabalham para o coletivo algumas horas por semana, principalmente na portaria, na cozinha comunitária ou na limpeza.

Ocupações de edifícios há muito abandonadas começaram aqui há mais de uma década atrás, mas o aumento do custo de vida e um governo municipal relativamente solidário levaram a uma recente onda.

De acordo com a municipalidade de São Paulo, há pelo menos 4.000 famílias que vivem em prédios ocupados só no centro da cidade.  O MTST, a maior organização de sem-teto, diz que tem pelo menos 600 lotes de terra adicionais ocupados no estado e 10.000 pessoas em lista de espera para ocupar mais.

“Haverá uma explosão de ocupações ao longo dos próximos anos”, prevê Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST , que se reuniu com a Presidenta Dilma Rousseff durante uma onda de protestos econômicos e sociais em junho. “Dissemos a ela que a única maneira de criar uma política habitacional sustentável no Brasil é parar a subida dos preços de moradia”.

No nível local de São Paulo, o governo municipal do Partido dos Trabalhadores de Dilma, elegido recentemente, tem uma relação complicada com os ocupantes.

“É uma forma legítima de protesto social”, afirma o Secretário de Habitação da cidade, José Floriano de Azevedo Marques Neto, em seu escritório a poucos quarteirões da ocupação, antes de admitir que “Sim, eles são ilegais”.

Quando a polícia pega grupos ocupando prédios abandonados, ela faz detenções. Mas ocupantes, uma vez dentro, podem permanecer até um eventual despejo por via judicial, e, enquanto isto, podem usar sua posição para pressionar o governo a desapropriar as áreas dos donos que as abandonaram e frequentemente devem impostos atrasados. Ocupantes muitas vezes ficam na lista do governo para receber habitações subsidiadas.

A Secretaria de Floriano de Azevedo diz que planeja construir 55 mil casas, mas estima que a cidade precise de pelo menos 230 mil unidades. De acordo com estimativas do governo, o país como um todo está precisando de mais de 5 milhões de casas adicionais, principalmente nos centros urbanos.

Muitos dos edifícios ocupados foram abandonados anos atrás, muito antes do boom econômico que transformou cidades brasileiras em paraísos para os ricos, assim como lugares cada vez mais árduos para o pobre sobreviver.

Uma vez que muitos proprietários de prédios abandonados devem impostos atrasados, eles não voltaram para limpar e reutilizar suas propriedades.

Construir habitação para pobres no Brasil não é lucrativo o suficiente para as empresas privadas, afirma Claudio Bernardes, presidente do Secovi-SP (Sindicato da Habitação de São Paulo). Ao mesmo tempo, diz ele, as ocupações são ilegais e os proprietários dos edifícios se voltaram para os tribunais para recuperar suas propriedades. Ainda nenhuma decisão definitiva foi tomada a respeito de quando os manifestantes do São Manuel teriam que sair. “Não podemos aceitar uma forma de protesto que infrinja os direitos dos outros”, diz Bernardes.

***

Em uma reunião semanal na ocupação São Manuel, coordenadores anunciam os nomes daqueles que foram expulsos da ocupação por comportamento inadequado, e discorrem sobre listas de custos e vitórias legais.

Para manter a ordem, os moradores impõem uma disciplina rígida e expulsam aqueles que quebram as regras, fixando na entrada as identidades daqueles afastados por má conduta. Não são permitidas ameaças físicas, uso de álcool ou de drogas e preconceito (incluindo a homofobia).

“Isto é como um campo de batalha. Temos que ter atenção total, uma vez que esta é uma organização de guerrilha. Nós somos guerrilheiros desarmados”, diz o coordenador Manuel Moruzzi.

Moradores se cumprimentam alegremente nos corredores ou nas escadas e passam sinais encorajando membros para cuidar um ao outro enquanto esperam pacientemente pelo banheiro ou marchando para cima e para baixo nas escadas, já que o elevador está quebrado.

Muitos se mantém nos seus próprios afazeres, mas alguns são gregários, como Habiba do Marrocos, que frequentemente pratica seu português nos corredores enquanto corre atrás de seu filho, Suleiman. Sergio Kleber da Silva, que parece estar nos seus 50 anos, diz que não poderia suportar a vida como assistente de contador e que teve azar quando o seu sonho de se tornar cantor falhou – por enquanto, ele acrescenta; ele ainda está ansioso para compartilhar suas músicas.

Gil Anderson, garoto de 10 anos obcecado com o aprendizado de inglês, brinca com carros de brinquedo com o amigo Victor, de  9 anos. “Eu gosto muito mais daqui do que o último lugar que eu morava”, diz Gil. “Há sempre crianças ao redor para brincar”.

Moruzzi diz que a maioria dos moradores entra na ocupação sem objetivos políticos. “A maioria das pessoas vêm aqui porque está em circunstâncias completamente desesperadas”, diz ele. “Nosso trabalho aqui é dar novas chances neste lugar para reestruturar suas vidas e torná-los conscientes dos direitos que eles têm”.

Poucos nos movimentos sem-teto acreditam que seus objetivos mais amplos de controle de aluguel e habitação acessível para baixa renda serão realizados em breve. Como nos Estados Unidos, os políticos brasileiros são fortemente dependentes de contribuições de campanha de grandes interesses corporativos, afirma o coordenador do MTST, Boulos.

“Os trabalhadores viviam perto de onde trabalhavam. Mas a elite fez um pacto com o governo para empurrá-los para a periferia e elevar o preço da terra para beneficiar os ricos”, diz ele. “As ocupações são destinadas a combater a lógica de apenas jogar os pobres para cada vez mais longe”.

No São Manuel, os ocupantes podem ser autorizados a permanecer mais alguns meses, ou mesmo alguns anos, enquanto se aguardam decisões judiciais. Nesse meio tempo, a moradora Mirla Firmino da Silva está tentando obter seu diploma de ensino médio, a fim de estudar Direito.

“Eu sou uma parte de algo aqui e sou autônoma, fazendo o meu próprio dinheiro como manicure”, diz ela, enquanto se forma uma fila para o jantar. “Mas a vida aqui é apenas temporária”.

 

 

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SAIU no LOS ANGELES TIMES

O correspondente Vincent Bevins, do Los Angeles Times,  passou uma semana na ocupação Marconi, aqui em seguida o artigo que saiu no jornal com chamada na capa! … Algum tradutor porfavor?….

 

o link original :

http://www.latimes.com/world/la-fg-ff-brazil-occupied-housng-20131013,0,1683395,full.storyCaptura de Tela 2013-10-13 às 18.51.48

 

SAO PAULO, Brazil — As shoppers and businessmen pass by the 13-story office tower, a middle-aged man peers through a hole in a thick metal door, pulling back a heavy steel rod to allow in only members of the Movement of Housing for All.

Upstairs, children, low-income workers and a few revolutionary idealists squat in makeshift apartments that boast stunning views but no water or kitchens. Communal bathrooms are available in the middle of the Sao Manuel office building, which has been occupied by the movement for almost a year.

In a large central room, a group of women prepares a cheap, hearty meal and plans out a work schedule for fellow residents. When an 80-year-old woman with diabetes falls ill, others on her floor come together to call paramedics. When she dies in the hallway, the neighbors comfort one another before moving on with their lives.

“I came to Sao Paulo from my small hometown, where there is no work, and ended up staying in this occupation with a friend without knowing anything about it at all,” says Mirla Kelly Firmino da Silva, 22, a freelance beautician who specializes in manicures. “But now I believe completely in the movement. None of us can afford to pay what rent costs here, and we deserve dignified housing.”

Over the last year, the center of South America’s largest city has been markedly transformed, with nearly 50 abandoned buildings occupied by squatters from Brazil’s many sem-teto, or roofless, movements.

The occupation protests at the buildings, where red flags hang from windows, are meant to pressure the government to provide adequate housing and give working families a place to live.

In both rich and poor neighborhoods of Sao Paulo, a metropolis of 11 million, property values have more than doubled in the last four years, leading to increased housing costs for those least able to afford them. In the seedier parts of downtown, a tiny one-bedroom apartment overlooking scenes of drug use and prostitution costs $450 a month; meanwhile, the minimum wage is $310 a month.

At Sao Manuel, known locally as the Marconi occupation after the street that the building is on, 140 families each pay $50 a month and work a few hours per week, manning the front door, cooking or cleaning.

Occupations of long-abandoned buildings began here more than a decade ago, but the rising cost of living and a relatively sympathetic city government have led to a recent surge.

According to the city of Sao Paulo, there are at least 4,000 families living in occupied buildings in the city center alone. The MTST, a larger sem-teto organization, says it has at least 600 additional occupied plots of land in the state and 10,000 people on a waiting list to occupy more.

“There will be an explosion of occupations over the next few years,” predicts Guilherme Boulos, national coordinator for the MTST, who met with President Dilma Rousseff during a wave of economic and social protests in June. “We told her the only way to create a sustainable housing policy in Brazil is to stop the rise in housing prices.”

At the local level in Sao Paulo, the recently installed city government from Rousseff’s ruling Workers’ Party has a complicated relationship with the occupiers.

“It is a legitimate form of social protest,” city Housing Secretary Jose Floriano de Azevedo Marques Neto said at his office a few blocks from the occupation, before conceding that, “Yes, they are illegal.”

When police catch groups breaking into abandoned buildings, they make arrests. But squatters, once inside, can remain until expelled by legal proceedings, and in the meantime can use their position to pressure the government to expropriate the properties from the owners who abandoned them and often owe back taxes. Occupiers often get on the government’s list to receive subsidized housing.

Floriano de Azevedo’s office says it plans to build 55,000 homes, but estimates the city needs at least 230,000 units. According to government estimates, the country as a whole is in need of more than 5 million additional homes, mostly in urban centers.

Many of the occupied buildings were abandoned years ago, long before the economic boom that has transformed Brazilian cities into havens for the rich, as well as increasingly tough places for the poor to survive.

Since many owners of abandoned buildings owe back taxes, they have not returned to clean up and reuse their properties.

Constructing housing for Brazil’s poor is not profitable enough for private firms, says Claudio Bernardes, president of the real estate industry union in Sao Paulo. At the same time, he says, the occupations are illegal, and building owners have turned to the courts to regain their properties. No ruling has yet been made as to when the Sao Manuel protesters would have to leave. We “cannot accept a form of protest that infringes on the rights of others,” says Bernardes.

Occupation protest in Sao Paulo, Brazil***

At a weekly meeting at the Sao Manuel occupation, coordinators announce the names of those who have been expelled from the occupation for improper behavior, and run through lists of costs and legal victories.

To keep order, the occupiers impose rigid discipline and expel residents who break the rules, posting at the entrance the identities of those exiled. No physical threats, alcohol or drug use, or prejudice (including homophobia) is allowed.

“This is like a battlefield. We have to be at full attention, since this is a guerrilla organization. We’re unarmed guerrillas,” says coordinator Manuel Moruzzi.

Residents greet one another cheerfully in the hallways or on the stairs, and pass signs encouraging members to look out for one another as they wait patiently for the bathroom, or trudge up and down the stairs because the elevator is broken.

Many keep to themselves, but some are gregarious, like Habiba of Morocco, who frequently practices her Portuguese in the hallways as she chases around her son, Suleiman. Sergio Kleber da Silva, who looks to be in his 50s, says he couldn’t stand life as an accountant’s assistant and fell on hard luck when his dream of becoming a singer failed — for now, he adds; he is still eager to share his tunes.

 

Gil Anderson, a 10-year-old obsessed with learning English, plays with toy cars with friend Victor, 9. “I like it much more here than the last place I used to live,” Gil says. “There’s always kids around to play with.”

Moruzzi says most residents enter the occupation without any political goals. “Most people come here because they are in completely desperate circumstances,” he says. “Our job here is to give new entries a place to restructure their lives, and make them aware of the rights they have.”

Few in the sem-teto movements believe their wider goals of rent control and accessible low-income housing will be delivered any time soon. As in the United States, Brazilian politicians are heavily reliant on campaign contributions from major corporate interests, MTST coordinator Boulos says.

“Workers used to live close to where they work. But the elite made a pact with the government to push them out into the periphery and push up the price of land for the rich,” he says. “The occupations are meant to combat the logic of just throwing the poor further and further away.”

At Sao Manuel, the occupiers may be allowed to stay a few more months, or even a few years, pending judicial rulings. In the meantime, squatter Firmino da Silva is trying to get her high school degree in order to study law.

“I’m a part of something here, and am autonomous, making my own money doing manicures,” she says, as a line forms for dinner. “But living here is only temporary.”

Bevins is a special correspondent.